terça-feira, 29 de setembro de 2009

Casualidades

Casualidades

Amanhece, anoitece, vinte e quatro horas passam voando ou se arrastando, dependendo do dia da semana, da nossa pressa, do nosso humor, do nosso dinheiro, de nossas expectativas.
Corremos, andamos, ficamos parados, sentamos, levantamos, deitamos, dormimos, sonhamos, acordamos e começa tudo outra vez!
Olhamos enxergando e enxergamos sem ver.
São tantas coisas diferentes, milhares de partículas de um universo construído todos os dias bem em nossa frente, mas tantos detalhes escapam de nossa percepção que amanhã, se olharmos para alguns deles, vamos acreditar que eles foram recém inventados sem saber que eles sempre existiram.
Pessoas passam cada uma com suas preocupações, com suas alegrias, suas tristezas, suas pressas, suas preguiças e cada uma delas é uma ilha, cercada de si mesmas por todos os lados, impenetráveis a esses estranhos que caminham ao seu lado pelas ruas cinzas das cidades.
De repente, no meio desse ritmo frenético, alucinado, ou calmo e preguiçoso, pessoas estabelecem contatos entre si, por segundos, minutos e jamais voltam a se encontrar.
No ponto de ônibus alguém olha para o relógio repetidas vezes, em gestos automáticos que remetem à pressa do cotidiano e aquela pessoa, com toda a sua pressa e inquietação já não cabe mais nela mesma e precisa se expandir, soltar para o mundo o seu grito de insatisfação e fala para a senhora que olha atentamente para as nuvens carregadas e semi-negras do céu, sobre o ônibus que tanto demora enquanto ela lhe fala sobre a chuva que está prestes a cair. De repente se vêem em um senso comum discutindo sobre o ônibus que pode os tirar dali.
Ela quer abrigo para a chuva que vem se anunciado agora por trovões, ele quer chegar ao compromisso marcado, sem atraso.
Naquele momento de pura concordância, parecem velhos amigos, mas apenas por alguns minutos mágicos, que permitem que confiem um no outro sem nunca terem se visto e com a alta probabilidade de que jamais se encontrarão ou, que se encontrarem novamente não terão esse momento místico e não se falarão novamente e nem se reconhecerão.
Casualidades...
O momento dele, o momento dela.
Cada um em sua ilha, cercados de si mesmos, conseguiram fundir suas porções de seres únicos e defenderem o interesse comum, sendo duas ilhas em uma só, num complexo e completo momento de desprendimento de si mesmos, olhando um ao outro, sendo o outro, se completando!
Apenas alguns minutos.
Quantas vezes isso já aconteceu com você?
Você já foi o universo de muitas pessoas nesses minutos breves e maravilhosos e muitas pessoas já fizeram parte de sua ilha.
Você sorriu para completos estranhos, que jamais reencontrou.
Você reclamou de muitas coisas que te aborreciam para pessoas que te ouviram como anjos numa oração, sem pedir nada em troca.
Você já riu de situações embaraçosas, com pessoas que não sabem nem ao menos seu nome.
Você já discutiu os preços altos com alguém que não entendia nada de economia, mas como você, achou que aquilo realmente estava caro.
E são tantos encontros como esses e ainda tantos outros diferentes, inusitados, quase acidentais que mostram o quão grande é seu espírito, o quanto ele pode viajar além dos limites de seus conceitos sobre falar sobre você e ser quem você realmente é.
Nesses momentos você é muito mais você do que jamais você será diante de seu melhor amigo, de sua família, de quem você ama e de qualquer pessoa que você julgue conhecer ou ache que conheça você.
Essas pessoas que casualmente cruzaram sua vida sabem mais de você do que todos as pessoas com quem você se relaciona normalmente, porque você consegue ser nesses momentos, puramente você, essencialmente você, sem fingimento, sem máscaras, sem nenhuma necessidade de provar coisa nenhuma.
E, no entanto, de tão importantes, essas pessoas duram apenas alguns minutos em sua vida, que geralmente são esquecidos.
Comece a reparar em cada encontro casual em sua vida e escreva sobre seus encontros, os detalhes, o que você pensava que roupa vestia o que realmente queria naquele momento e vai ter ótimas histórias sobre si mesmo para contar e vai ter o privilégio de conhecer um pouco mais sobre essa misteriosa ilha que você é.

sábado, 5 de setembro de 2009

Fim

Egoísta, um ser dono da verdade!
Apenas despercebida de uma realidade paralela que há muitos se revela, mas de mim se esconde e se desfaz sem que ao menos possa tomar consciência da sua veracidade.
Palavras ditas por meus lábios, são sofrimentos de uma cólera apaixonada, de um dom de se sentir incapaz e que dá ares de loucura aos que não convivem nos domínios de minha insana e tão cansada mente, que não conhecem meu submundo de sofrimentos.
Agoniante é o despertar do sono as mais das vezes, é não poder permitir ao corpo descanso eterno e ter que conviver com o mundo feio que se mostra lá fora.
Dominam-me lágrimas em todos os meus estranhos dias, sorrir é um dilema que inspira ares de falsidade quando o que se sente não é jamais alegria.
Mendigo, suplico migalhas de um amor superficial que ninguém doa e ainda sonho profundamente com um amor totalmente mágico e incondicional e talvez o portador dessa forma tão impar de amar não tenha nascido ou jamais se torne real, apenas fruto de meus desejos.
Beijo uma boca que jamais será minha, que se perdeu dominado pelo amor passado que repousa no coração daquele que jura que jamais amou e que ao despertar de sua inércia verá que seu amor ainda vive no passado, por mais que tente viver no presente, descobrirá que seu futuro já ficou para trás.
Mansamente me conjugo como verbos escritos no pretérito imperfeito, vivo subjugada como ser inferior que não consegue ascender acima do chão.
Passivamente, acolho humilhações de uma vida vazia, em que sucumbe o corpo por ser involuntário criador de uma nova vida para a qual não se dá a luz, que jamais nascerá nesse ventre vazio.
Perdeu-se o ânimo novamente, a luta que se devia travar, se transformou em rendição covarde.
Fuga de um desesperador viver, cansado e lastimoso.
Defeitos repetidos, não há conserto para o que não se estragou, simplesmente sempre foi e será o que se é. Nada se transforma, apenas acostumam-se nos enormes e infindáveis dias que ainda há de se contar.
Histórias sem fim de vidas cruzadas que se somam, fazem parte uma da outra sem jamais se completarem.
Sou apenas eu mais uma vez reclamando desse insuportável dever de ter que viver todos os dias sem poder fugir e sempre correndo o risco de dura punição.
Nada adianta não morrer hoje se a cada dia que passa morre a minha alma numa desgraça de tristezas e amarguras sem fim.
Angústias, angústias, cordas que me enforcam me levem para bem longe daqui!
Morte, contemple-me que minha vida já está muito gasta para ser necessário continuar.
Não há de se suportar de novo o amanhã que estacionou e não mais acontecerá, tudo se apaga, é o fim!
Graças a Deus, terminou...