domingo, 26 de agosto de 2012

O cigarro

No princípio era o repúdio, na moralidade de minha doce infância...
Via meus pais ali, tragando e expirando aquela fumaça branca azulada, com cinzas espalhadas, um cheiro ruim, brasas que se acendiam e cripitavam na noite e se acendiam mais intensas em meio a tragadas, risadas, palavras e tosses roucas.
Então, simplesmente por convenção ou convencimento, eu negava aquele vício e me imaginava na minha distante vida adulta, longe dele, porque cheirava mal, fazia mal...
De braços dados com a adolescência, veio aquela rebeldia e desafiar o que era certo, era dever, prazer e então instalou-se o "desafio do desafiar"...
Às vezes, ia andando até o colégio e economizava a grana do bonde e comprava um solto pra na hora do lanche, me juntar àquela rodinha de pessoas descoladas e acender o pito e esbanjar liberdade e poder... e eu podia tudo nos meus lindos 13, 14 anos!
Eu era tão revolucionária, que as piores idéias (que sempre são as melhores) partiam de mim.
Organizava excursões à liberdade e depois do recreio arrebanhava a sala de aula toda para enganar a tia do portão dizendo que não tínhamos mais aula e as portas se abriam e fugíamos contentes e vitoriosos rumo a aventuras.
Saindo do Água Verde, cruzávamos o centro rumo ao Shopping e no Centro Cívico, lá estávamos nós no Mueller.
Me achava a rainha da contravenção e isso me conferia tanto poder, que as pessoas me rondavam sempre, como quem se fascina por um líder e o segue onde quer que ele vá.
E nossas armas eram nossa juventude, nosso destemor, nossa alegria e nossos cigarros, que mais pareciam uniformes e demarcavam quem eram as pessoas mais legais.
Deve ser por isso que comecei a fumar, por essa necessidade de ser, ou em me fazer diferente!
Driblei tudo e todos desde cedo, em busca das coisas que eu queria.
Dificilmente em algum momento pessoas conseguiram me fazer desistir das minhas vontades.
Jamais me acovardei em lutar, em mudar, em transpor limites, abrindo portas onde existiam apenas paredes...
Quando minha mãe suspeitou, vasculhou minha mochila surrada e encontrou carteira e isqueiro... acho que ela sentiu o cheiro enquanto eu tomava banho muito feliz com o cigarro preso a um grampinho de roupa pra não molhar!
Nem era vício, era o prazer de fazer o avesso do convencional.
Não eram tragadas, era impunhar uma bandeira de conquista pelo que eu queria e ninguém poderia me impedir!
Ela contou a meu pai... senti um medo escorrendo pelo corpo e enfrentei, com aquele sarcasmo que me faz rir nas horas mais impróprias! E ele disse, acenda um e fume.
Então peguei o cigarro, coloquei no canto da boca, o isqueiro subiu junto, fiz uma concha pra espantar o vento e o fogo veio e se misturou ao papel e ao fumo, que incendiou aquele tubo branco de papel pra fumaceira começar fácil.
Puxei aquela fumaça grossa, densa, com gosto de queimado e soltei aquela nuvem branca que ficou entre mim e meu pai.
Aí nesse momento, imaginei qual seria o veredito...
Eu estava ferrada, essa era a única certeza que me vinha à mente.
Ele olhou pra mim, com um olhar intrigado e disse:
- Olha! E acendeu um cigarro... Puxou a fumaça, abriu a boca e nada... A fumaça não estava lá!!!!
Depois de alguns segundos, um milagre aconteceu! A fumaça saiu pelos lábios.
Então ele riu e disse:
- É assim que se traga!
E então eu entendi que eu nem sabia tragar e minha mãe ficou furiosa, pois esperou que eu levasse aquela mijada e o que meu pai fez, foi me ensinar a tragar.
Depois desse episódio, coisas passaram a acontecer.
Quando eu ia para Castro, no final de 91, meu pai gentilmente deixava na cozinha, uma carteira de "Capri" dando sopa.
Sabia que não era dele e nem pra ele.
E abria a carteira e deixava ela lá, ia furtando aos poucos e sabia que ele estava me vigiando.
Então passei a fumar e fumar e fumar.
Agora entendo esse "fumar" como um vício, que ao mesmo tempo era necessidade e que se revertia em prazer.
Acordava já pensando nele e o procurava para matar minha vontade e ele estava comigo o dia todo e eu sequer pensava no motivo de precisar daquilo.
Nos últimos anos as coisas estavam ainda mais automáticas... Fumava, fumava, fumava, acendia um cigarro no outro, entre um e outro usava bombinha para asma e meu ar já era escasso e meu pulmão doía.
E mesmo assim eu fumava, tragava aquela fumaça para consolar minha alma da necessidade que aquilo me causava e os gestos ficaram somente ainda mais automáticos e impensados.
O cigarro se tornou um vício desnecessário, que não me acrescentava em nada, me fazia mal, me deixava mal, dilacerava aos poucos meu corpo e fui me escravizando num prazer que eu sequer tinha consciência que era desnecessário.
Fui parando aos poucos...
Comecei a vê-lo menos, a meta era fumar em espaços cada vez maiores e maiores e maiores.
E meu corpo estava mal... eu estava morrendo e não sei se queria morrer por causa de um vício maldito.
Então, um belo dia, eu quase morri de verdade durante a madrugada, em meu quarto.
Acho que foi o propulsor da decisão final...
Meu pai já não estava mais aqui, fazia um ano que ele tinha ido, sem sequer dar um adeus.
Na madrugada acordei, como que afogada e o ar não entrava e me deseperei tentando tragar ar para meus pulmões e ele não vinha e lutei quando a morte parecia certa.
Passado um tempo, não maior que um minuto, o ar veio tímido e a cor voltou a meu rosto e eu respirei e quando acordei, pensei nele.
Mesmo sabendo o quanto ele fez parte da minha vida e o quanto eu precisava dele, o deixei de lado, na estante ao lado da cama, onde podia vê-lo e até tocá-lo se eu quisesse, mas não o desejei, não me dominei por ele, não mais o permiti em minha vida.
E os primeiros dias foram confusos, associava tudo a ele, desejava ele, queria ele a todo o momento... ao acordar, depois de comer, ao estar no ócio, ao sair, ao piscar, ao respirar...
E uma fome avassaladora tomava conta de mim, evitava aquela fumaça que pairava sobre minha alma, comendo a toda hora para preencher um estranho vazio.
E os dias foram passando e as coisas foram ficando mais fáceis, e o desejo diminuiu, sonhava com ele... e acordava pensando "não resisti"... mas não era a realidade.
E no mundo real eu fui desistindo daquele grande mal, dia após dia, resistindo a tentações de voltar atrás e descobrindo que na verdade eu nunca precisei dele.
E depois de quase 20 dias me convenci, que era hora de fazer algo por mim e comecei a cuidar de mim mesma e ressurgi e me apaixonei outra vez por mim.
Então comecei a me cuidar, a comer menos, a andar mais, a beber mais água, a ir em outros lugares, a ver outras pessoas.
Mas o vício ainda está em mim!
Mesmo sem sentir vontade consciente, penso no prazer, em estar com ele e como ele combinava comigo, como ele me dava um ar mais despojado e como ele desejava me matar aos poucos... e como realmente eu quase morri e acordei descobrindo que não... ainda estava viva!
E desejei viver e viver passou a me fazer bem e hoje viver é minha única opção.
Então estou aprendendo algumas coisas novas a cada dia e cada dia fica mais fácil estar longe e no final das contas, parece que isso jamais fez parte de mim e que na verdade, eu nunca fumei!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sonho...

Essa noite passeei por corredores de hospitais, era doente ali, mas era a menos enferma.
Encontrei pastas, li prontuários e me deparei com óbitos.
Fui liberada para acompanhar funerais, onde pessoas necessitavam da minha força.
Estranhamente, conversei com várias mulheres e todas elas estava no banheiro, disputando um espelho, preocupadas tão somente com suas vaidades imediatas.
No meio de tanta gente, encontrei uma senhora, com a tristeza estampada no rosto, sem nenhuma maquiagem, sem nenhuma vaidade, estava ali por estar ali.
No exato instante que a vi, lembrei do prontuário, uma criança de 5 anos, câncer e a identifiquei como familiar desse inocente e entendi porque eu estava ali.
Comecei a conversar com ela, confirmou-me que era mesmo esse caso e então, comecei a falar da vida, da brevidade dela e sobre as dívidas que nós mesmos assumimos para estar aqui.
Ela me disse que estava muito triste e queria tê-lo ao seu lado... e só pude lhe dizer que, amar é uma coisa muito bela, que devemos amar sem limites, incondicionalemente, mas, quando uma pessoa se vai, ela tem um novo caminho a trilhar e reclamar a presença física dela a todo momento, corresponde a amarrá-la atrasando o seu novo caminhar.
Pedi a ela, que em seu imenso amor, trouxesse alegria nesse sentimento de perda, lembrando dos doces momentos em que teve com essa linda criança em sua breve existência aqui na Terra.
E seus olhos se encheram de luz, porque aquilo tudo o que eu dizia, começou a fazer sentido para ela e ela transbordou amor nesse momento, me abraçou, disse que eu era uma pessoa muito linda e saiu.
Eu estava em um cemitério onde tinham pelo menos 3 funerais acontecendo simultâneamente.
Mas dentre todas as pessoas, apenas aquela mulher parecia estar vivendo um momento de perda, de luto, enquanto todas as outras, pareciam estar num desfile de vaidades exacerbadas....
Enfim, acordei...
Mas foi um sonho, porém de uma realidade tão grande, que acordei com a sensação de que uma grande verdade se manifestou para mim enquanto eu dormia.
Meu domingo está mais significativo, antes mesmo de levantar, já fiz um bem e essa sensação eleva o espírito de qualquer ser e traz uma sensação de paz.
Talvez tenha sonhado tudo isso, por ter usado palavras parecidas no final da noite, para conter lágrimas que minha filha trazia aos olhos, pedindo pelo pai, que assim como aquela criança do sonho, também partiu.
E ela, assim como a mulher do sonho entendeu, que a vida não cessa com a morte, que tudo é um processo natural de evolução e cada um tem seu caminho a percorrer.
E, nos deparando com a morte, sofreremos a perda, mas devemos deixar o espírito livre para continuar sua jornada, que a partir da morte, é apenas um processo longe de nossos olhos.
Bom domingo...